Admito que me sinto privilegiada quando, nas férias, tenho a oportunidade de me hospedar em um hotel cinco estrelas, em uma cidade maravilhosa com todo luxo e conforto. Também sinto uma certa felicidade quando consigo comprar roupas ultra-grifadas por preços ridículos em algum outlet do planeta. Talvez pudesse gastar a mesma quantidade de dinheiro por uma camisa sem marca ou um jeans de feira. Será mesmo que uma blusinha da Dolce & Gabbana dura mais do que uma comprada em uma lojinha chinesa qualquer?
O fato é que, inconscientemente, acreditamos que o fato de poder beber um champagne Cristal com certa regularidade nos faz um pouco mais especiais nesse grande mundo globalizado povoado por milhões de desconhecidos.
Lemos nos jornais notícias que poderiam ser avassaladoras, como 10, 20, 100 mortos em uma guerra não sei aonde, mas não sentimos mais nada. Não pensamos absolutamente no assunto. É só mais uma notícia de morte. Como mais um filme de Hollywood onde o mocinho destrói metade da cidade e mata não sei quantas milhares de pessoas para salvar a mocinha. Talvez devessem mudar o nome, mocinho. Um que mata tantas pessoas ainda pode ser o mocinho? Pode estar do lado dos "bons"?
Aliás, que coisa mais demodê falar em bons e maus. Hoje não existe certo e errado. Existem experiências, vidas vividas intensamente. Matou 6 porque estava dirigindo bêbado? "Ah, pode acontecer, todo mundo pode dar uma escorregada de vez enquando, não?" E assim perdoamos os erros, mesmo que graves, com a justificativa de que somos simplesmente humanos e imperfeitos e não temos o direito de julgar para não sermos julgados.
Como é que nos tornamos assim?
Fico chocada quando leio uma matéria que fala dos novos ricos chineses. Um povo que não estava acostumado a tantas desigualdades sociais, mas que nos últimos quatro anos está vivendo a realidade de novos ricos que querem aprender o que significa o luxo do Ocidente e querem viver também essa experiência. Não é só exclusividade chinesa, mas também russa. Brasileira. Americana. Européia.
A publicidade foi tão bem desenvolvida nos últimos anos que não sabemos mais distinguir entre vida real e imagem.
Nas minhas horas livres adoro responder pesquisas de mercado sobre produtos. Outro dia, respondi um questionário online para uma marca de produtos de limpeza. No meu computador, apareciam imagens de embalagem de produto com frases diferentes e eu deveria responder qual delas me convenceria a comprar o produto. Tinha até uma pergunta sobre se eu me sentiria mais especial por comprar determinado detergente.
E eu lá, colaborando com as empresas na manipulação dos clientes, eu em primeiro lugar. Agora quando vou ao supermercado dou uma atenção aos produtos de limpeza como nunca havia dado antes. Para dizer a verdade eu sempre comprava o produto em promoção ou que tinha o cheirinho mais agradável. Que mané pensar que sou especial só porque comprei o detergente gold invés do "limão"!
Capitalismo selvagem
Me vêm a mente aquela canção dos Titãs, banda de rock brasileira, que dizia "homem primata, capitalismo selvagem". Cara, esse sistema capitalista não funciona! Veja a crise recente dos mercados, com a especulação, as pessoas sem saber onde colocar o dinheiro: o banco será mesmo seguro? compramos ouro? colocamos embaixo do colchão?
O fato é que se pensarmos bem, o que fazemos com um monte de ouro? Comemos o ouro? Podemos usar como forma de transporte? O ouro não serve para nada! Nem diamantes. Na hora da crise serve comida e um teto. O homem inventou o dinheiro para poder acumular os frutos do seu trabalho de modo que pudesse viver uma velhice tranquila. Mas o dinheiro é tão somente papel.
Papel que era resultado de trabalho, de sacrifício. E, com os mercados, virou sinônimo de riqueza rápida e fácil. Alguns acumulam em dias a fortuna que milhares trabalhando não alcançarão nem depois de 40 anos! E são premiados por essa façanha! Porque teoricamente está ao alcance de todos, se você não ganha especulando é porque não é capaz. E se não é capaz, não vale nada. Bem feito para você!
Com todo o dinheiro do mundo que você conseguiu acumular só para você, o que você faz? Ivana Trump se casou com um mocinho bonitão com quase 30 anos menos que ela. E que deve amá-la muito! Outros gastam em coleções de sapatos, vinhos, quadros. Sempre caríssimos. Quanto mais caro, melhor. Aliás, aqueles que vendem os produtos caríssimos para os riquíssimos devem se sentir muito espertos por ganharem tanto por tão pouco. Simplesmente por convencerem o mundo que comprando um sapato Prada você não está comprando apenas um sapato, mas a glória de ser rico e bem sucedido! E todos queremos sentir o gostinho dessa glória. Para quê?
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